
Donald Trump sofreu uma derrota histórica nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos: os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, segundo projeções da Associated Press (AP). A apuração da votação de terça-feira (3) avançou pela madrugada desta quarta-feira (4) com vitórias da oposição em redutos republicanos e estados que haviam apoiado o presidente em 2024.
A perda das duas maiorias muda o equilíbrio de forças em Washington e compromete a capacidade de Trump de aprovar sua agenda nos dois últimos anos de mandato. O novo Congresso assume em janeiro de 2027, quando a oposição poderá usar suas maiorias para bloquear projetos, investigar a administração e barrar nomeações presidenciais.
Onda azul derruba redutos republicanos e rompe jejuns históricos
Até a manhã desta quarta-feira, as projeções da AP indicavam ao menos 225 cadeiras democratas na Câmara, acima das 218 necessárias para controlar a Casa, que tem 435 integrantes. No Senado, o bloco democrata alcançava pelo menos 54 das 100 cadeiras, superando as 51 necessárias para a maioria.
Os números permanecem parciais, com disputas ainda sem definição. A conquista das duas Casas, porém, já estava projetada. A dimensão histórica do resultado aparece nas vitórias democratas em estados onde o partido acumulava décadas de derrotas nas eleições para o Senado:
Texas: James Talarico derrotou o procurador-geral republicano Ken Paxton. O estado não elegia um senador democrata desde 1988.
Kansas: o pastor metodista Adam Hamilton venceu o senador Roger Marshall, encerrando um jejum democrata iniciado em 1932 — há 94 anos.
Carolina do Sul: Annie Andrews venceu em um estado que não elegia um senador democrata desde 1998.
A onda também atingiu Ohio, Iowa, Carolina do Norte e Maine. Segundo a AP, os democratas tomaram ao menos sete cadeiras do Senado dos republicanos, ampliando o alcance da derrota do partido de Trump.
A composição do novo Senado também terá marcos de representatividade. O progressista Abdul El-Sayed, eleito por Michigan, será o primeiro senador muçulmano da história dos Estados Unidos. Chris Pappas, de New Hampshire, será o primeiro homem abertamente gay a integrar a Casa.
Entre os republicanos, Byron Donalds foi eleito o primeiro governador negro da Flórida, ao derrotar o democrata David Jolly.
Guerra com o Irã e custo de vida pesam contra Trump
A derrota ocorreu em um cenário de desgaste do governo, marcado pela insatisfação com a guerra contra o Irã, a alta dos combustíveis e o aumento do custo de vida. O descontentamento alcançou eleitores de estados que haviam contribuído para a vitória presidencial de Trump em 2024.
Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na segunda-feira (2), véspera da votação, mostrou o presidente com 32% de aprovação, perto de seus piores índices históricos. O levantamento foi realizado entre 29 de outubro e 2 de novembro.
O desejo de impor limites ao presidente também apareceu em levantamento com eleitores citado pela Reuters: metade dos entrevistados via a eleição como uma oportunidade de repreender Trump, enquanto 70% queriam que o Congresso exercesse maior controle sobre o presidente.
Trump aceita resultado, mas ameaça governar no veto
Diante das projeções de derrota, Trump declarou ao The New York Times estar “absolutamente disposto a aceitar esses resultados” e afirmou que “provavelmente chegaremos a um entendimento” com os democratas no Congresso.
A sinalização de diálogo veio acompanhada de uma ameaça de bloqueio legislativo. Em sua conta na Truth Social, o presidente publicou a foto de um boné vermelho com a palavra “veto”.
A estratégia já havia sido antecipada em entrevista ao podcast Pod Force One, do New York Post. “Acho que vou me tornar o Sr. Veto”, disse. “Eles vão enviar algumas coisas. Você veta. E, eventualmente, vêm até nós e fazemos um acordo.”
Ao mesmo tempo, Trump tentou se afastar da responsabilidade pelo resultado. Em sua rede social, argumentou que seu nome não estava nas cédulas e que, se estivesse, os republicanos teriam vencido “de lavada”.
O presidente classificou a decisão de entrar em guerra com o Irã como “muito sensata” e afirmou não se arrepender de nada. Apesar das derrotas republicanas, descreveu os dois primeiros anos de seu segundo mandato como “o período de dois anos mais bem-sucedido na história de qualquer presidente”.
O que muda com o Congresso nas mãos dos democratas
Com a nova composição, os democratas terão poder para barrar projetos do governo, fiscalizar gastos públicos e abrir investigações sobre a administração republicana. Trump passará a negociar com uma oposição que controlará as duas Casas legislativas.
A maioria no Senado representa um obstáculo adicional para a Casa Branca. Cabe aos senadores aprovar ou rejeitar indicações presidenciais para ministros, embaixadores e juízes federais, inclusive integrantes da Suprema Corte, caso surja uma vaga.
O partido do presidente costuma perder espaço nas eleições de meio de mandato, como ocorreu em quase todas as disputas desde a Segunda Guerra Mundial. Desta vez, o revés inclui a perda simultânea das duas maiorias e derrotas em redutos conservadores. Para Trump, o resultado significa enfrentar os dois últimos anos de governo com um Congresso de oposição e a perspectiva de confrontos permanentes sobre sua agenda.





