O quintal da minha Vó, era minha casa

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Quando eu chegava no quintal da minha saudosa Vó Adriana eu estava em casa. É bem verdade que não se tratava de uma residência planejada por arquiteto, engenheiro, mestre de obras nem lá existia material de primeira, muito menos de segunda.
Minha família era acrescentada. Sempre fomos três homens e duas mulheres e mais pai e mãe. Eram sete bocas para comer de manhã de tarde e de noite, quando tinha o que comer. Morávamos em casa alugada e na condição paupérrima em que vivíamos o jeito foi entregar a casa ao dono e construir a nossa no espaçoso quintal de Vó, cedido para esse fim.
A negra forte e valente se compadeceu com a situação dos netos e da filha que se viram sem ter para onde ir. Na rua da amargura. A solução foi erguer uma casinha nos fundos do quintal da casa de número 93, na Rua Bela Vista.
A construção da residência foi a muitas mãos. Na verdade, foi um mutirão que reuniu a numerosa família contando os tios e sobrinhos que deram uma mãozinha. Meu pai se encarregou de conseguir a madeira nas matas em grande quantidade, os cipós para amarrar as varas que davam sustentação às paredes e as sobras de telhas para fazer o telhado. A casa de taipa ganhava forma e o acabamento foi feita de barro. Me lembro como se fosse hoje. Eu e meus irmão amassávamos o traço de barro com os pés para dá liga. Depois a massa sem cimento era colocada no meio do entrelaçado de paus, varas e cipós. Com algumas semanas de trabalho as portas frágeis de dois rolos foram colocadas em seus devidos lugares e lá fomos nós para debaixo do teto.
Dos fundos da nossa casa a vista era bela. De lá a paisagem nos presenteava com o açude do Estado, o sítio de Seu Zé Gordo, que caminhava de muletas; ele teve uma das pernas amputada por causa do diabetes. Outro sítio era pertencente ao Senhor Marcílio. Era um verdadeiro pomar. Frutas para todos os gostos e água em abundância. Era Marcílio quem socorria os moradores da Rua Bela Vista ao permitir que pegássemos água em sua cacimba inesgotável. Tirávamos água com a lata sem precisar de corda. Uma riqueza.
Mas no quintal de Vó o que mais me atraía era mesmo a jaqueira. Quando começava a brotar os primeiros frutos do ano já ficava na expectativa de como seria degustar aquela jaca. Eu acompanhava o crescimento do fruto diariamente. Passava horas trepado na jaqueira vendo os frutos crescerem. Fazia estripulias também em cima do pé de jaca, me refugiava em momentos de crise comigo mesmo ou com meus pais. Quando estava amuado era a jaqueira a quem eu procurava e lá ficava sentado num dos galhos olhando para o horizonte e esperando a raiva passar.
Guardo muitas lembranças do quintal da minha Vó. Foi lá que eu quebrei os meus dois braços e foi no sítio de Marcílio que meu irmão mais novo, Tota, que sobrevive no Rio de Janeiro, caiu do pé de goiaba e teve fratura exposta em um dos braços. Era no percurso para o sítio de Marcílio, na ladeira da bosta, que colhíamos argila e com ela criávamos cuidadosamente os bois, cavalos, cabras e burros para brincar de fazendeiro no quintal da minha Vó.
Hoje o casebre de taipa não existe mais, minha Vó já partiu para a morada celeste, mas o quintal continua vivo em minhas lembranças.