Como a interferência dos EUA pode ameaçar o poder do seu voto

Por Fernanda Lima/Revista Focus

Marco Rubio, Secretario de Estado do governo Trump, encarna a política intervencionista na América Latina. Foto: Wikimedia

A interferência dos EUA em eleições e governos pode atingir o poder do voto antes e depois das urnas. Ao financiar aliados, promover propaganda ou apoiar a derrubada de governos, uma potência estrangeira pode limitar as escolhas de uma população e impedir que sua decisão seja respeitada. Na América Latina, episódios documentados mostram como essas ações comprometeram a soberania e interromperam experiências democráticas.

Essa história ajuda a compreender por que a defesa do voto envolve também a capacidade de um país decidir seus rumos sem imposições externas. Isso não significa que toda ação militar tenha finalidade eleitoral, mas que seus efeitos podem atingir as instituições e as escolhas políticas de outras sociedades.

Como a interferência dos EUA marcou a América Latina
Durante a Guerra Fria, o combate ao comunismo justificou operações norte-americanas contra governos latino-americanos. Na Guatemala, em 1954, a CIA organizou a operação que derrubou o presidente Jacobo Árbenz. A participação está registrada em documentos publicados pelo próprio Departamento de Estado. Arquivo histórico dos EUA.

No Brasil, documentos desclassificados mostram que Washington preparou apoio material e militar aos adversários de João Goulart durante o golpe de 1964. A operação conhecida como Brother Sam previa o envio de combustível, armamentos e uma força naval. A rapidez da derrubada do governo tornou desnecessário o emprego desse apoio militar. National Security Archive.

No Chile, a interferência alcançou diretamente a disputa eleitoral: os Estados Unidos financiaram candidaturas e propaganda contra Salvador Allende. Depois de sua vitória, em 1970, mantiveram ações clandestinas contra o governo, derrubado pelos militares chilenos em 1973. Os registros documentam essa atuação, embora a participação norte-americana tenha assumido formas diferentes em cada país. Departamento de Estado.

Em dezembro de 1989, os Estados Unidos invadiram o Panamá e retiraram Manuel Noriega do poder. O combate ao narcotráfico esteve entre as justificativas apresentadas para a operação, ao lado da proteção de cidadãos norte-americanos e de interesses ligados ao Canal do Panamá. Histórico do Exército dos EUA.

Esses episódios mostram mecanismos distintos: interferir na competição eleitoral, apoiar a ruptura de um governo ou impor uma mudança política pela força.

A pressão militar no governo Trump
No segundo mandato de Donald Trump, o combate ao crime organizado passou a ser associado de forma explícita à política de enfrentamento ao terrorismo. Em fevereiro de 2025, o governo norte-americano classificou oito organizações criminosas latino-americanas, entre elas seis cartéis mexicanos, como organizações terroristas estrangeiras. Associated Press.

Em novembro daquele ano, o anúncio da Operação Lança do Sul ocorreu em meio à concentração de forças no Caribe e a ataques contra embarcações que Washington alegava estarem ligadas ao tráfico. A justificativa oficial era combater redes criminosas. Axios.

A escalada teve um novo capítulo em 3 de janeiro de 2026, quando forças norte-americanas capturaram Nicolás Maduro em Caracas e o levaram aos Estados Unidos. A operação foi precedida por meses de preparação militar e de inteligência. Associated Press.

Trump também fez ameaças de ação militar contra México e Colômbia. No caso colombiano, houve depois uma abertura diplomática: em janeiro, o presidente norte-americano conversou com Gustavo Petro e o convidou à Casa Branca. A sequência mostra a alternância entre coerção e negociação na relação com os vizinhos. AP, Reuters.

Irã e Iêmen: força militar e negociação
No Oriente Médio, os ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2026, mataram o líder supremo Ali Khamenei. A morte foi confirmada pela imprensa estatal iraniana. O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou a ofensiva e afirmou que ela violava o direito internacional. O governo norte-americano sustentou que sua ação era legal. AP sobre o ataque, AP sobre o Conselho de Segurança.

Já o acordo entre os Estados Unidos e os houthis, no Iêmen, foi anunciado em 6 de maio de 2025, com mediação de Omã. Portanto, ocorreu antes dessa ofensiva contra o Irã. O entendimento previa a suspensão de ataques entre as partes, incluindo contra embarcações norte-americanas no Mar Vermelho e no estreito de Bab el-Mandeb. Reuters.

O acordo evidencia a importância estratégica das rotas comerciais. Não permite, por si só, concluir que Washington interrompeu os bombardeios para controlar o preço da gasolina ou favorecer um resultado eleitoral.

O que a interferência externa tem a ver com o voto
A relação mais direta aparece quando há financiamento estrangeiro de candidaturas, propaganda para favorecer aliados ou apoio à derrubada de governos. Em outros casos, a pressão militar pode limitar a autonomia de um país, sem que seja possível medir seu efeito sobre a preferência dos eleitores.

Uma intervenção não precisa alterar a contagem dos votos para atingir a soberania: pode comprometer as condições de disputa ou impedir que decisões políticas sejam tomadas pelas próprias instituições nacionais. Os episódios históricos não comprovam, por si só, uma interferência na eleição brasileira de 2026, mas mostram por que a autonomia política importa para a democracia.

Defender o poder do voto significa, também, defender o direito de cada sociedade decidir seu futuro. Identificar quem interfere, quais instrumentos utiliza e quais consequências produz é parte dessa defesa.