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Home Colunistas

Carta a Bernardo V

14 de julho de 2015
in Colunistas

bernardo5                                                                                                                                                  Por Alexandre Henriques
 
Querido Bernardo.
Escrevo hoje, em primeiro lugar, para lhe desejar um feliz aniversário. Afinal, passaram-se dois anos desde que você chegou.
Sei que você está se lixando para a crise econômica da Grécia,  para  o escândalo da Petrobrás e para o esgotamento das águas pluviais da velha rua da Lagoa em Guarabira. Faz muito bem.  Afinal, reconheço que não são poucos os seus afazeres de hoje e dos dias vindouros.
Não posso esquecer da sua responsabilidade ao  dividir  com Sir Topham Hatt aadministração e a operação de uma complexa ferrovia. Trilhos em expansão, cargas, manobras e desvios, enfim, coisa séria. Conheço o seu empenho nesse trabalho, pois foi com muito cuidado para não acordá-lo que consegui tirar a locomotiva  “Thomas”  de suas mãos, depois de um dia  exaustivo de intensas atividades.
Sei ainda que você não cultiva  hábitos como o  de ouvir os noticiários das rádios da aldeia, ancorados por desenvoltos e sapientes comentaristas, nem tampouco assiste os jornais televisivos que trazem as notícias da  “crise”  do nosso país e pelo mundo a fora, nos locais aonde ela tiver aportado, sempre de forma insistente, sugerindo a iminência de uma catástrofe.
Quando não é a crise daqui são as consequências das crises de fora, mostradas  em suas minudências. Os narradores, por sua vez,  quase sempre conseguem um link para aquilo que nós afeta. Encontram alguma  correlação que  implicará mudanças em nossas vidas, sempre para pior. Posso lhe  assegurar, meu neto,  que o seu pouco interesse neste particular e por agora,  não lhe causará nenhum prejuízo.
Mas se você, meu bom Bernardo,  já fosse dado à assistência e a oitiva dessas mídias, saberia que em nossa aldeia, as primeiras chuvas de julho fizeram com que parte significativa da inteligência local represasse e, junto com a água, formasse  um caudaloso remanso, escoando, em seguida,  pelo ralo inconcluso que está sendo feito no fundo da nossa velha lagoa, a mesma que os nossos antepassados insistiram em encher de prédios.
Vimos parte do nosso parco e insipiente pensar, descer rio abaixo para a bandas do Mamanguape, a jusante dos nossos interesses,  indiferente  a qualquer apelo da razão.
Bem que a enxurrada  poderia ter carregado apenas miudagem das discussões desconstrutivas e inócuas, as quais somos submetidos, todos os dias,  do amanhecer até a noitinha, através das redes sociais e, principalmente, por algumas das nossas emissoras de rádio.
Creia, caro  Bernardo, que para ter vez e voz nessas  contendas, não é  preciso apresentar maiores credenciais, basta cantar bravatas na defesa do candidato, ou do já detentor de mandato, e ir afiando as unhas para rasgar a pele política dos  adversários.
Faz-se a alegria de poucos,  sempre em detrimento do interesse coletivo. Os maiores beneficiários, são aqueles que  bancam o soldo dos opiniosos. Estes últimos, por sua vez,  alegram-se em manterem-se na condição de  imbáculos.
Desvia-se a atenção da aldeia dos problemas reais, criando uma cortina de fumaça sobre os compromissos  assumidos pelos gerentes  temporários em suas campanhas. Esvaem-se os mandados para a casa do pouco ou quase nada realizado, cujas consequências redundam no nosso atraso.
O que se tem visto, e nisso reside o ápice do desatino,  é um certo ar de contentamento no semblante dos que torcem contra o escoamento definitivo das águas das chuvas na Pedro II,  que tanto têm incomodado a todos. Estamos mais perto do que longe de ganhar um ralo definitivo. A  interferência de agora propõe sanar uma demanda que por pouco alcança meio século de existência.
Seria mais razoável, a meu  ver, deixar que a obra seja concluída e aí sim, cobrar responsabilidades caso não funcione.  Por outro lado, caberia um pouco mais de prudência por parte dos que, inadvertidamente,  deram o problema por resolvido antes do tempo. É certo que, no geral,  tem-se pouco a comemorar, mas que não o façam por antecedência.
Se os que torcem contra estão sem assunto,  sugiro que cobrem da administração municipal, mesmo no ocaso do mandato,  a vila olímpica, as casas populares, a efetivação da municipalização do trânsito, a construção de um novo mercado público e de um novo cemitério, bem como  a limpa do mato e a conservação dos já existentes, que encontram-se em petição de miséria.
Podem também pedir o fim das construções irregulares sobre as calçadas; o regular funcionamento dos postos de saúde, com a presença, se possível, de médicos;  o fechamento de buracos das nossas vias, a manutenção das faixas de pedestres; uma reforma decente no nosso sistema de iluminação pública, principalmente nos bairros etc. Isto para nos ater apenas ao que precisaria ser mantido, somado  à parte do que foi prometido em campanha.
Deixando de lado as turbulências vivenciados pelo povo da aldeia, nesses dias de muita água, volto a falar sobre a Grécia, mais especificamente sobre uma entrevista que muito me chamou a atenção.
Vi, querido neto,  num desses noticiários televisivos aos quais me  referi no início, uma professora grega, após votar no plesbicito, dizer que preferia 10 anos de necessidades, e até de fome, a um dia de submissão. Disse isso rindo e de forma desassombrada. Um belo exemplo  vindo da terra que presentou a humanidade com o pensamento Sócrates, Platão e Aristóteles, dentre tantos outros. Um exemplo de resistência ao neonazismo econômico da chanceler Ângela Merkel, cujos liderados chamam os gregos de preguiçosos, de certo  pelo fato de que,  historicamente, conservam o hábito da  contemplação.
Pelo observado, meu neto, tento a seguinte reflexão sobre este recorte da crise Grega: quantas   refregas  têm que passar um povo para começar a entender que é dono e senhor do seu próprio destino, e que tem a capacidade de mudá-lo, as vezes que  sejam necessárias, até encontrar o verdadeiro caminho do futuro.
Voltando novamente à aldeia, e aos motivos que  atanazaram  os ouvidos dos nossos aldeões, me veio à lembrança uma assertiva de Aristóteles, de quem você  ouvirá falar,  e muito: O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.
Quanto às  crises, da mesma forma que “As ameaças e as guerras…” do poema de  Maiacovisk, ” …havemos de atravessá-las,  cortá-las ao meio, como a quilha corta as ondas”.
Não quero mais roubar seu tempo, porém, aproveito para lhe desejar, meu neto,  que hoje e sempre, você seja  obrigado apenas à alegria e que também seja desassombrado, elegante e manso, mas nunca passivo. Que não se apavore nunca com o novo, examinando-o sob todos os ângulos. Ouse com prudência. Se for preciso, recue para avançar. Seja um observador paciente da natureza, inclusive da humana e, quando olhar para o alto, tenha os pés fincados no chão e a consciência de  que aquilo  que vê, nem é azul nem é céu, mas uma ilusão ótica de rara beleza.
P.S. Ah! Ia me esquecendo. Não procure no Aurélio ou no Houaiss, pois você não irá encontrar, o significado de palavra imbáculo, ela não pertence ao nosso idioma. Tomei-a emprestada dos gregos. Até pouco tempo, apesar de saber da existência deles, eu não sabia que podiam também ser tratados assim, sem que tal tratamento represente qualquer ofensa.
A  palavra, meu neto, designa aquelas pessoas que precisam do apoio de outro ou de algo para caminhar, de um báculo, o mesmo que um cajado, uma escora, pois não são capazes de caminhar sozinhas. Imbáculo, no idioma pátrio, é o mesmo que imbecil.

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