Quando a política começa a decidir o que a nossa fé deve dizer, todos nós já perdemos

Opinião – Por Manuel Batista

A disputa eleitoral passa, mas a fé permanece. O alerta do padre Bruno Franguelli nos convida a pensar até onde estamos permitindo que preferências políticas ocupem o lugar do Evangelho. Vi uma reflexão publicada pelo Pe. Bruno Franguelli, escritor, jesuíta e conferencista, em seu perfil no Instagram, que considero necessária para este momento. Independentemente de preferência política, ela provoca uma pergunta que todo cristão deveria ter coragem de fazer: o que a política está fazendo com a nossa fé?

Segundo Pe. Bruno, católicos, protestantes e evangélicos talvez já tenham perdido algo importante nesta eleição sem sequer perceber a dimensão dessa perda.

E não se trata simplesmente de saber qual candidato venceu ou perdeu.

O problema é muito mais profundo.

Em sua reflexão, Pe. Bruno cita uma fala do Papa Leão XIV sobre a aproximação da extrema-direita com determinada linguagem religiosa. Conforme reproduzido pelo sacerdote, o Papa teria alertado que isso não representa uma expressão autêntica do cristianismo, porque a fé cristã não pode servir para legitimar o ódio, a divisão ou a exclusão.

É a partir daí que surge uma questão incômoda, mas necessária.

Estamos levando os valores do Evangelho para a política ou trazendo as paixões da política para dentro do Evangelho?

Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

O cristão tem todo o direito de participar da política. Pode escolher candidatos, defender ideias, discordar, votar conforme sua consciência e participar ativamente da vida pública.

O perigo começa quando a preferência por determinado político se torna tão forte que passamos a adaptar nossos próprios valores religiosos para justificar tudo aquilo que o nosso lado faz.

Padre Bruno chama atenção justamente para esse fenômeno. Pessoas e até influenciadores que deveriam anunciar a fé acabam transformando o cristianismo em uma espécie de identidade político-partidária.

Chegamos, então, a uma inversão perigosa: cristãos passam a defender políticos com a mesma intensidade com que deveriam defender os princípios da própria fé.

E talvez exista algo ainda mais grave.

Quando gostamos de determinado político, corremos o risco de encontrar justificativas para comportamentos que condenaríamos imediatamente se viessem do adversário. Dependendo de quem fala ou de qual lado está, misericórdia, perdão, respeito e dignidade humana começam a receber pesos diferentes.

Nesse momento, alguma coisa saiu do lugar.

A fé deveria ajudar a formar nossa consciência política. Nunca deveria ser a política a determinar quais partes da nossa fé estamos dispostos a aceitar.

Esse é, para mim, o ponto mais forte da reflexão do Pe. Bruno.

Uma eleição dura alguns meses. Um mandato passa. Partidos mudam. Lideranças aparecem e desaparecem. Adversários de hoje podem estar juntos amanhã.

E a nossa fé?

O que ficará depois que os palanques forem desmontados?

Se para defender um candidato precisamos perder a capacidade de respeitar o outro, se o adversário político passa a ser tratado como inimigo pessoal, se abandonamos a misericórdia e a compaixão porque elas atrapalham a narrativa do nosso grupo, precisamos perguntar sinceramente: o que ainda resta do Evangelho em nós?

Não importa se isso acontece à direita ou à esquerda. O alerta deveria alcançar qualquer cristão que esteja colocando sua preferência política acima dos valores que afirma professar.

Podemos ter candidatos. Podemos ter posições políticas. Podemos discordar profundamente.

O que não podemos é ter um político como medida da nossa fé. A medida do cristão deve continuar sendo o Evangelho.

A eleição vai terminar.

Os vencedores comemorarão. Os derrotados seguirão seus caminhos. E, cedo ou tarde, uma nova disputa começará.

Mas a pergunta levantada pela reflexão do Pe. Bruno Franguelli, escritor, jesuíta e conferencista, continuará diante de nós: “quando toda essa disputa política acabar, o que terá restado da nossa fé?”

Porque, se para vencer politicamente precisarmos perder o amor, a compaixão, o perdão e o respeito pelo próximo, talvez a maior derrota não seja eleitoral. Talvez seja nossa.