
A governança pública se sustenta, antes de qualquer artifício marqueteiro ou aliança de bastidor, sobre dois pilares fundamentais: a coerência institucional e a palavra empenhada. No entanto, o que presenciamos recentemente no cenário político e administrativo da Paraíba ilustra, de forma cristalina e preocupante, a fragilidade de um Executivo acuado por pressões oligárquicas. O episódio que culminou na nomeação, exoneração relâmpago e posterior retrocesso em relação à Gerência Executiva de Disciplina do Sistema Prisional expõe uma ferida profunda na gestão da segurança pública do Estado.
A cronologia do descompasso e a alegria efêmera
No dia 28 de julho de 2026, o Diário Oficial do Estado trouxe uma lufada de esperança para a categoria dos policiais penais paraibanos. Por meio dos Atos Governamentais nº 4.232 e nº 4.233, o senhor Guido Maria Ferreira de Araújo Junior foi exonerado do cargo de Gerente Executivo de Disciplina da Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (SEAP), abrindo espaço para a nomeação do policial penal de carreira Roberto Daniel de Figueiredo — um profissional amplamente qualificado e respeitado pelos pares.
A reação da tropa e das entidades representativas foi imediata e unânime: comemoração. Durante o período em que esteve à frente da gerência, a gestão de Guido Maria — policial penal oriundo do Estado do Rio Grande do Norte — acumulava sérias críticas da categoria, que denunciava recorrentes práticas de perseguição a servidores e desvios na condução dos procedimentos correcionais. A substituição parecia sinalizar um aceno do Palácio da Redenção à meritocracia e aos pleitos de quase dois mil policiais penais que integram o sistema.
“A alegria da categoria durou menos de vinte e quatro horas. O que se viu a seguir foi a demonstração cabal de que a autonomia administrativa é uma miragem diante do apetite de grupos políticos tradicionais.”
A reversão e o preço da pressão crônica
Apenas um dia depois, em 29 de julho de 2026, os Atos nº 4.278 e nº 4.279 deram a rasteira definitiva na legalidade e no bom senso: a exoneração e a nomeação foram tornadas sem efeito. Guido Maria retornou ao cargo, e a vontade da secretaria e dos servidores foi sumariamente atropelada.
A pergunta que ecoa nos corredores da segurança pública paraibana é inevitável: quem governa o Estado? É notório nos bastidores que a sustentação do ex-gerente sempre esteve umbilicalmente ligada ao grupo Paulino — capitaneado por Roberto Paulino, que ocupa a Secretaria de Governo, e por seu filho Raniery Paulino, suplente de deputado federal. Informações convergentes apontam que, acuado por ameaças e pressões diretas dessa família (cujo peso político vem minguando, vide a incapacidade recente de sequer eleger um prefeito em Guarabira), o governador recuou de sua própria decisão.
Segurança Pública não é moeda de troca eleitoral
O episódio revela uma faceta perigosa do que podemos chamar de “governança biônica”: um arranjo onde o governante perde a capacidade de decidir com base no interesse público e passa a gerir o Estado como um balcão de negócios familiares e eleitoreiros. Como admitir que um suplente de deputado e um clã em decadência regional consigam dobrar o chefe do Poder Executivo em pautas sensíveis da segurança pública?
Vale lembrar que a Polícia Penal não é um departamento burocrático qualquer; é um braço armado e essencial da segurança pública do Estado, alicerçado pela Constituição Federal e Estadual. Tratar cargos estratégicos da corregedoria e da disciplina prisional como cabides de emprego ou concessões de compadrio político é colocar em risco a integridade institucional do sistema e a dignidade de quem arrisca a vida diariamente nos presídios.
Ao voltar atrás em menos de 24 horas, o governador enfraquece a própria autoridade, desmoraliza a Secretaria de Administração Penitenciária e passa um recado desolador à tropa: na Paraíba de 2026, a voz de quase dois mil policiais penais vale menos do que o capricho de uma oligarquia familiar em busca de sobrevivência política. A farda e a carreira merecem respeito; o clientelismo, o banimento.






