‘Eu te darei o céu’, uma homenagem a Pedro Alves

janeiro 5, 2017
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Cada um idealiza o céu à sua maneira e com base, na maioria das vezes, em uma crença, uma fé religiosa ou uma convicção científica que possua. Na visão mais comum e estreita, o céu, se for um lugar, é reservado para poucos, embora ambicionado por muitos. O estranho é que ninguém esteja pronto para embarcar para o plano celestial de imediato. Intimamente, por mais que sejam os janeiros vividos, impera quase sempre a certeza de que o céu pode esperar.

Como o imaginar é livre, imagino Pedro Alves chegando ao céu. Nessa minha visão, o céu de Pedro bem poderia ser comparado ao céu do poeta Manoel Bandeira, aquele onde a preta Irene foi dispensada por São Pedro do pedido de licença e dos demais salamaleques formais.

Com Pedro Alves, por certo, não seria diferente. O porteiro do céu, de longas barbas brancas e bonachão, ao avistar Pedro, apoiaria as suas mãos sobre os ombros do chegante e, de sorriso aberto, o reverenciaria dizendo:

— Pode entrar xarapa, a casa é sua.

E, depois de um caloroso abraço, o chaveiro do céu voltar-se-ia aos presentes e anunciaria exultante:

— No próximo domingo teremos a apresentação de Roberto Carlos Especial aqui do céu.

O anúncio seria seguido de vivas, aplausos e assobios.

Cansado da (suponho) longa viagem, Pedro seria encaminhado às suas acomodações por um assessor especial das hostes celestes, mas não sem antes, ao pé do ouvido do querubim, perguntar um pouco sem jeito:

— Amigo, você que tem asas e é mais antigo por essas bandas, onde é que a gente molha o bico ?

Prefiro construir a cena dessa maneira, para amainar a tristeza e a falta que desde já está fazendo a todos nós este ser humano especial. Costuma-se, nestes casos, dizer que deixa uma grande lacuna. Usarei o superlativo, Pedro deixa uma imensa cratera no coração dos amigos e na vida da cidade. Por onde passou, fez uma verdadeira legião de admiradores. Ao lado de sua companheira, repartiu sua genética na construção de uma família formada por moços inteligentes e educados os quais deixa como legado, por não se interessar, sabiamente, por qualquer outro tipo de bem.

Expedito Santos e Pedro Alves, cada qual no seu espaço de atuação, são como duas metades da história do rádio em Guarabira, veículo que hoje sofre o vilipêndio da gerência político partidária, distanciando-se, a cada dia que passa, do que os textos oficiais costumam tratar como concessão pública para a difusão da informação e afirmação dos nossos valores culturais.

A Expedito coube desbravar, implantar e fazer moer o engenho de transmitir sons de forma invisível para os ermos do nosso território e para além dele. O invento já existia há algum tempo, mas tal qual o cigano Melquíades, dos Cem Anos de Solidão, incumbiu a Expedito trazê-lo e operá-lo por muito tempo em Guarabira.

Da Rádio Independência à Publicidades Piloto, passando pela Rádio Cultura, Rádio Constelação e Radio Rural, quando não foi dono esteve sócio.

Se Expedido deu ossatura aos veículos de comunicação, Pedro Alves deu essência. Se um foi corpo, outro foi alma.

Difícil, quando se trata de céu, é imaginar um Pedro imaculado, sem culpas ou pecados. Como o céu que aqui propomos continua no plano poético literário, Pedro seria repreendido sim, mas, “pró forma”, através de ofício, tudo de conformidade com a burocracia celeste, além do mais, com os cuidados necessários para não inquinar o prestigio do repreendido.

Pedro Alves, Pedro Raposeiro e Peter Fox, que vêm ser a mesma pessoa, teria na gula um dos motivos da reprimenda. Uma galinha de capoeira, bem temperada, à moda São Sebastião de Piloezinhos, colocada diante de um pecador como ele, transformava de imediato a sua fisionomia em puro contentamento. Em poucos segundos, o riso de canto a canto da boca, estaria engraxado pelo molho da penosa, chegando a escorrer pelo queixo. Em minutos, sem perder a desenvoltura, sobrariam apenas os ossos.

Sua atuação no rádio não era restrita aos domingos, ou seja, ao programa especial que fazia. Mas, quem o sintonizasse nesses dias, na certa ouviria algo mais ou menos assim:

— Atenção Lia, você ai no comecinho da rua São Manoel, ouvindo o nosso programa e preparando aquela bípede emplumada gostosa que só você sabe fazer. Que cheiro maravilhoso, está chegando aqui no Monte Virgo. O Geraldo e o Gil Cândido estão com água na boca. Eu também. Passamos ai logo mais.

Um abraço especial para o meu amigo Vermelho, cuja bodega fica lá no finalzinho do bairro do Cordeiro e tem a cerveja mais gelada do Brasil.

Paulinho da Matança, também na escuta, receba o meu abraço. Como nos versos do rei, não se esqueça de mim. Reserve um pouco do picado e, se possível, daquele torresminho que só você sabe preparar.

Sobe o BG (background, como diria Betinho Araújo)

Desse o BG

— O abraço agora vai para os amigos Geraldo e Beto Lima, do Paraiguara, aqui bem pertinho dos nossos estúdios. O filezinho com fritas estava realmente delicioso. A turma boa do Paraiguara sabe que nessas horas o estômago reclama e nos faz aquela gentileza, viabilizando o término do nosso programa sem os atropelos dos roncos da barriga; sem o perigo de que esse ruído da fome seja modulado de forma audiofônica pelo competente Capitão Amazonas, que hoje comanda a nossa técnica.

E por falar nisso, pedimos aos amigos ouvintes que mantenham seus rádios distantes do telefone quando participarem do nosso programa, evitando assim a retro alimentação acústica, a velha e conhecida microfonia.

Na lista dos pecados teria Pedro ainda pedalado, aqui e ali, no duro e quase pétreo texto do penúltimo mandamento. Afinal, era um ídolo da amplitude e da frequência modulada. Quantos corações dilacerados não se socorreram do seu aconselhamento, sempre ministrado em tom grave e acústico. Mas, com relação a isso, já estava tudo previamente acertado. Esse assunto não seria posto em discussão, para não criar constrangimentos ou gerar celeumas desnecessárias. Tais pedaladas, seriam referenciadas apenas em despacho celeste, com arrimo em farta jurisprudência, transformadas em apoio caritativo, obviamente sob cerrado protesto de alguns anjos conservadores e falso moralistas, já que nem o céu está livre desses tipos.

No primeiro programa Roberto Carlos Especial transmitido para as hostes celestes, Pedro Alves abriria dizendo:

— Jesus Cristo Eu Estou Aqui. Sei que diante de tua presença os Detalhes desse meu viver pecador não te escaparão. Sei que Debaixo do Caracóis dos Teus Cabelos, haverá uma historia já contada, de um mundo tão distante e pecador. Quero que saiba, Senhor, Como é grande o meu amor por você. Peço a Nossa Senhora que me dê a mão, e que cuide do meu coração, já que em vida não fui tão zeloso com ele. Sei que para estar no céu É Preciso Saber Viver.

Sobe o BG

Com o estúdio lotado de anjos, santos e congêneres, disputam os botões da mesa de som José Mandu e Alberto Alverga (também recém chegados), sempre advertidos por Pedro sobre a responsabilidade dessa sua primeira participação na rádio celeste. Combinou-se, para tanto, que o tratamento seria solene e não seriam usados os apelidos Pitiguari e Tatu, respectivamente.

Jesus Cristo, por sua vez, mostrando uma certa ansiedade, pergunta a Pedro:

— Já podemos fazer pedido?

— Claro que sim, Senhor.

— Ah! Então toca Canzone Per Te, vencedora do festival de Sam Remo, na voz de Roberto. E, se possível, toca depois a mesma canção com de Zizi e Luiza Possi. A interpretação em dueto ficou divina, digo belíssima. Lady Laura, está em viagem de férias por outras galáxias, mas sintonizada conosco.

Pedro deixa muita saudade e milhares de outras histórias que sem dúvida ainda serão contadas.

Fica em paz amigo Pedro, para além das dores da vida, para Além do Horizonte.

                                                                                                                                    Alexandre Henriques

 

P.S. Aos leitores, um link para Cazone Per Te, com Luiza e Zizi Possi. Realmente divina, digo, belíssima.

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